Uma terapia genética aplicada por meio de injeção reduziu de forma relevante a perda auditiva em dez crianças com surdez congênita, segundo pesquisa publicada na revista Nature Medicine. Os participantes, acompanhados entre seis e 12 meses, apresentavam perda média de 109 decibéis antes do tratamento; após o procedimento, o índice caiu para 52 decibéis, faixa classificada como deficiência auditiva moderada.
O estudo foi conduzido na China e utilizou um vírus adeno-associado para introduzir uma versão funcional do gene OTOF, cuja mutação é responsável por determinado tipo de surdez presente desde o nascimento. Esse vírus, já empregado em outras terapias genéticas, atua como vetor para levar o DNA corrigido às células do ouvido interno.
Os pesquisadores avaliaram dois parâmetros principais: segurança e eficácia. Efeitos colaterais foram relatados, porém nenhum considerado grave. Em termos de audição, todos os voluntários registraram algum grau de melhora.
Variação de resultados por faixa etária
Os autores observaram que os ganhos auditivos foram mais marcantes em crianças de 5 a 8 anos. Em bebês com cerca de um ano, a resposta foi menor, fenômeno considerado contra-intuitivo pelos cientistas. Entre as hipóteses levantadas está a possibilidade de que o fluido injetado exerça maior pressão sobre as estruturas auditivas dos pacientes mais novos, mas a causa exata ainda não foi esclarecida.
Contexto da surdez congênita
De acordo com o otorrinolaringologista Márcio Salmito, do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, de cada mil recém-nascidos, entre um e três apresentam deficiência auditiva. No caso específico da mutação no gene OTOF, o problema ocorre na transmissão do sinal entre as células que amplificam o som e o nervo auditivo: o ouvido capta os ruídos, mas o processamento falha.
Salmito, que não participou do estudo, explica que a redução de 106 para 52 decibéis significa que quem não percebia sequer o barulho de uma britadeira a curta distância passa a distinguir sons cotidianos, como falas e ruídos ambientais.
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Limitações do trabalho
O ensaio envolveu apenas dez pacientes e não incluiu grupo controle, o que impede comparação direta com placebo. Além disso, todos os voluntários pertencem à mesma população, restringindo a diversidade genética analisada. Novas pesquisas, com amostragem maior e mais heterogênea, serão necessárias para confirmar a eficácia, definir o momento ideal de aplicação e avaliar a viabilidade do tratamento em larga escala.
Por enquanto, a investigação indica caminho promissor para reduzir a perda auditiva causada pela mutação no gene OTOF, mas o procedimento ainda está longe de ser adotado rotineiramente na prática clínica.
Com informações de Folha de S.Paulo





