Mais de 90% das crianças que vivem em países de baixa e média renda permanecem em “desertos” de assistência cardíaca pediátrica, sem diagnóstico ou tratamento em tempo adequado. A constatação faz parte de um relatório da Federação Mundial do Coração, apresentado no último fim de semana durante o World Heart Summit, em Genebra, na Suíça.
O documento coloca o Brasil entre as nações que enfrentam grandes disparidades regionais na atenção às cardiopatias congênitas. Essas malformações, que se formam ainda na gestação, atingem cerca de 1 em cada 50 recém-nascidos no planeta. Em 2023, estima-se que 2,3 milhões de bebês tenham nascido com algum defeito cardíaco; pelo menos um terço deles precisará passar por cirurgia no primeiro ano de vida. Sem intervenção rápida, as formas mais graves podem levar à morte de até 85% dos afetados.
Diferença de acesso entre países
Embora a incidência de cardiopatias congênitas seja semelhante em nações ricas e pobres, o acesso ao tratamento varia drasticamente. Segundo o relatório, a mortalidade infantil relacionada a essas doenças em países de baixa e média renda é quatro vezes maior do que em economias desenvolvidas. A escassez de especialistas, leitos de UTI, equipamentos e centros cirúrgicos de alta complexidade é apontada como principal obstáculo.
Panorama brasileiro
No Brasil, dados do Ministério da Saúde indicam que cerca de 30 mil crianças nascem todos os anos com cardiopatias congênitas; 40% delas — perto de 12 mil — necessitarão de cirurgia ainda nos primeiros 12 meses de vida. As malformações cardíacas estão entre as principais causas de morte neonatal no país, e especialistas afirmam que muitos óbitos poderiam ser evitados com diagnóstico precoce e cirurgia em tempo hábil.
O Sistema Único de Saúde (SUS) oferece gratuitamente o “teste do coraçãozinho” para rastreamento logo após o parto, mas a cobertura é desigual. Apenas 20 estados e o Distrito Federal dispõem de unidades habilitadas para procedimentos cardiovasculares pediátricos, concentradas sobretudo em São Paulo, Minas Gerais e Bahia. A falta de serviços no Norte e no Nordeste obriga famílias a viajar longas distâncias, gera filas extensas e adia cirurgias críticas.
Iniciativas de telemedicina
Para o cirurgião Marcelo Jatene, diretor da unidade de cirurgia cardíaca pediátrica do InCor (Hospital das Clínicas de São Paulo), as desigualdades regionais não surpreendem, mas iniciativas recentes têm ajudado a reduzir parte do problema. Entre elas está um projeto do Proadi-SUS, coordenado pelo Hospital do Coração (HCor), que faz telemonitoramento de cirurgias em três hospitais do Norte e Nordeste: Hospital Francisca Mendes (Manaus), Hospital Infantil Albert Sabin (Fortaleza) e IMIP (Recife). A primeira operação monitorada ocorreu em 2023, no Amazonas.
O modelo inclui orientação pré-operatória, acompanhamento em tempo real por vídeo e áudio durante a cirurgia e suporte no pós-operatório. A expectativa do Ministério da Saúde é diminuir filas, qualificar profissionais locais e reduzir a dependência dos grandes centros do Sudeste.
Imagem: Internet
As experiências brasileiras com telemedicina e triagem remota em áreas distantes são citadas no relatório da federação como exemplos promissores para enfrentar atrasos diagnósticos e ampliar o rastreamento neonatal.
Desafio após a infância
O levantamento também destaca o crescimento da população adulta com cardiopatias congênitas. Os avanços cirúrgicos aumentaram a sobrevivência infantil, mas em países de renda média, como o Brasil, muitos pacientes chegam à idade adulta com sequelas ligadas a tratamento tardio ou incompleto. Profissionais da área alertam que a transição do cuidado pediátrico para o atendimento adulto ainda é fragmentada, e há falta de ambulatórios especializados.
Entre as recomendações da Federação Mundial do Coração estão a expansão de centros cirúrgicos, o fortalecimento da triagem neonatal, a formação de mais especialistas e a ampliação de plataformas de telemedicina, para que as cardiopatias deixem de ser tratadas como enfermidades raras ou exclusivamente infantis e passem a integrar políticas permanentes de saúde pública.
Com informações de Folha de S.Paulo





