Inteligência artificial passa a gravar consultas médicas e gera debate sobre privacidade

Programas de inteligência artificial que atuam como “escribas” já registram conversas entre médicos e pacientes nos Estados Unidos e transformam o áudio em rascunhos de prontuários eletrônicos. Segundo levantamento citado no setor, cerca de 30% dos profissionais norte-americanos adotaram a tecnologia para documentar atendimentos, buscando reduzir carga de trabalho, estresse e esgotamento.

Como funciona

As ferramentas captam a consulta, transcrevem o diálogo e geram uma nota inicial, que depois deve ser revisada pelo médico antes de ser anexada ao prontuário. A expectativa é que o recurso libere mais tempo para o contato direto com o paciente e produza registros mais completos, explica Paul Lukac, diretor de IA da UCLA Health.

Tempo de armazenamento

Cada serviço define suas regras. Na UCLA Health, o áudio e a transcrição ficam guardados por 14 dias. Já a Microsoft, responsável pelo Dragon Copilot, informa manter os arquivos por até 90 dias. Após esse período, a gravação é apagada; apenas o rascunho aprovado — com eventuais edições do médico — permanece no prontuário eletrônico, detalha Majid Afshar, pneumologista e intensivista da Universidade de Wisconsin-Madison.

Acesso do paciente

Pelos regulamentos de saúde norte-americanos, o paciente pode consultar todas as anotações incluídas em seu prontuário, mas normalmente não tem direito ao áudio nem à transcrição da conversa. Caso deseje, o próprio paciente pode pedir autorização para gravar a consulta, prática já comum em áreas como oncologia, observa Michael Turken, clínico geral da Universidade da Califórnia em San Francisco.

Consentimento

Nos Estados Unidos, a maior parte dos estados exige o consentimento de apenas uma das partes para que a gravação seja legal. Ainda assim, médicos tendem a informar previamente o uso do escriba de IA, afirma Sharona Hoffman, professora de direito e bioética da Case Western Reserve University. O profissional pode simplificar o pedido, perguntando apenas se o paciente concorda com uma ferramenta de anotações. O paciente tem o direito de recusar ou solicitar que a gravação seja pausada em trechos sensíveis.

Privacidade em debate

Empresas que operam os escribas são submetidas a leis de proteção de dados de saúde, mas especialistas alertam que essas informações continuam sendo alvo de hackers. O risco aumenta quando o médico utiliza um aplicativo sem contrato formal com a instituição de saúde. Paul Lukac recomenda aos pacientes confirmar se existe acordo oficial antes de permitir a gravação.

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Imagem: Internet

Precisão e revisão

O rascunho criado pela IA só deve ser incluído no prontuário depois da revisão do médico, que assume responsabilidade pelo conteúdo. Mesmo assim, erros ocorrem: em testes com cinco sistemas diferentes, pesquisadores identificaram média de três falhas potencialmente graves por anotação. Turken lembra que, assim como em notas redigidas manualmente, é aconselhável que o paciente verifique o que foi registrado.

Com a expansão dessas ferramentas para tarefas como faturamento, prescrição de medicamentos e apoio a decisões clínicas, especialistas reforçam a importância de médicos continuarem avaliando, caso a caso, tudo o que o software produz.

Com informações de Folha de S.Paulo

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