Sentir-se “de mau humor” quando a barriga ronca pode depender menos da queda de glicose no sangue e mais da consciência de que se está com fome. É o que sugere um estudo observacional publicado em fevereiro na revista The Lancet eBioMedicine, que investigou a origem do fenômeno popularizado em inglês como “hangry” – junção de hungry (faminto) e angry (irritado).
Coordenada pelo neurocientista Nils Kroemer, a pesquisa avaliou adultos saudáveis para descobrir se variações de humor são provocadas diretamente pelo nível de glicemia ou pela percepção subjetiva de fome. Os resultados indicam que a glicose influencia as emoções de maneira indireta: o gatilho para a irritação é o reconhecimento consciente de que o corpo precisa de energia. Quando a pessoa não percebe a fome, a queda de açúcar no sangue quase não afeta o humor.
Interocepção: ouvindo os sinais internos
O trabalho destaca o papel da interocepção — capacidade de o sistema nervoso captar e interpretar sinais internos, como batimentos cardíacos ou distensão gástrica. Participantes com maior precisão interoceptiva exibiram oscilações emocionais menores, reforçando a ideia de que “escutar” o próprio corpo funciona como mecanismo de autorregulação.
“Aprender a associar irritabilidade à fome é um recurso de controle emocional que aprimoramos com a idade”, explicou Kroemer à Agência Einstein. Caso essa identificação falhe, o mal-estar pode ser atribuído a fatores externos, gerando conflitos ou ansiedade sem causa aparente.
Limites e próximos passos
A endocrinologista Cynthia Valerio, diretora da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), avalia o trabalho como uma “prova de conceito” que precisa ser reproduzida em grupos maiores, sobretudo em pessoas com obesidade ou transtornos alimentares.
Impacto do peso e do ciclo hormonal
A pesquisa observou ainda que indivíduos com índice de massa corporal (IMC) elevado tendem a apresentar menor precisão interoceptiva. Segundo o nutrólogo Diogo Toledo, do Hospital Israelita Albert Einstein, a inflamação provocada pelo excesso de gordura visceral interfere nos circuitos de saciedade, dificultando a identificação da fome. Entre mulheres, a relação entre estado metabólico e humor mostrou-se mais intensa, possivelmente devido às variações hormonais ao longo do ciclo menstrual.
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Estratégias para estabilizar a glicemia
Especialistas listam ações simples para evitar que a fome se transforme em irritação ou compulsão alimentar:
- Combinar carboidratos com proteínas, fibras e gorduras de boa qualidade;
- Priorizar fontes proteicas como ovos, carnes magras, leguminosas e laticínios naturais;
- Reconhecer sinais precoces de fome – cansaço súbito, dificuldade de concentração, frio nas extremidades ou irritação sem motivo claro;
- Incluir fibras (aveia, chia) e gorduras insaturadas (abacate, azeite) para prolongar a saciedade.
Práticas de atenção plena durante as refeições — comer longe de telas, mastigar devagar e registrar sensações em diário alimentar — também ajudam o cérebro a interpretar corretamente os sinais de fome e saciedade.
Com informações de Folha de S.Paulo





