Estudo indica que alterações no Nilo há 4.000 anos favoreceram ascensão do reino de Kush

Modificações no curso do rio Nilo ocorridas cerca de 4.000 anos atrás teriam sido decisivas para o florescimento do reino de Kush, na atual região norte do Sudão, segundo pesquisa publicada em 27 de maio na revista Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS).

A conclusão parte de escavações conduzidas por Jan Peeters e Geoff Emberling, da Universidade de Michigan (EUA), nas imediações de Jebel Barkal, formação rochosa próxima da antiga cidade de Napata — patrimônio mundial da Unesco e antigo centro político e religioso núbio.

Como o rio mudou

Os cientistas coletaram 26 amostras de sedimentos para reconstruir a trajetória do Nilo desde o fim da Era do Gelo. Até o Holoceno médio, encerrado há cerca de 3.700 anos, o leito corria em nível bem mais baixo, formando barrancos elevados. No Holoceno tardio, redução das chuvas nas cabeceiras e perda de vegetação nas margens fizeram o rio subir até próximo das planícies adjacentes.

Essa elevação facilitou o transbordo anual e a deposição de matéria orgânica, criando uma faixa fértil de aproximadamente 3 km de largura — mais estreita que a do Egito (entre 10 km e 20 km), mas suficiente para impulsionar a agricultura local e sustentar o crescimento populacional de Kush.

Impacto político e cultural

Com maior produção agrícola, o reino tornou-se potência regional, servindo de elo comercial entre o interior da África e o Mediterrâneo. O excedente atraiu faraós egípcios, que chegaram a ocupar a área e difundir elementos culturais como o culto a Amon.

Estudo indica que alterações no Nilo há 4.000 anos favoreceram ascensão do reino de Kush - Imagem do artigo original

Imagem: Internet

O controle egípcio enfraqueceu por volta de 1.000 a.C. Nesse período, a elite núbia reorganizou o Estado, mantendo Napata como capital e erguendo pirâmides menores, de ângulo mais acentuado que as de Gizé. Já no século VIII a.C., Kush avançou ao norte e instaurou a dinastia dos “faraós negros”, que governou o Egito até cerca de 660 a.C.

Para os autores, fatores sociais e religiosos também contribuíram para a ascensão, mas a mudança hidrológica foi fundamental, permitindo que, assim como o Egito descrito por Heródoto, a Núbia pudesse ser considerada uma “dádiva do Nilo”.

Com informações de Folha de S.Paulo

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